Entrei no bar pouco depois de acabar o dia. Fui em direção ao caixa, parando pelo caminho para cumprimentar rostos conhecidos. Sorrisos, olhares, indiferença. De tudo um pouco no mesmo ambiente. Comprei uma ficha daquele liquido certeiro que me faria entrar ainda mais no que eu buscava naquela noite. Subi no terraço e admirei aquele céu nublado de outono. Observei todas aquelas pessoas, cheios de certezas em seus comportamentos, mas totalmente frágeis como todos somos. Os sons se misturavam entre a banda que tentava tocar Johnny Cash e Led Zeppelin, e os carros que na frente do bar variavam o som. Uma noite totalmente tocada por uma solidão de arrepiar. Sai do terraço defumada de cigarros baratos (ou não). Desci para o bar assim que ouvi as primeiras notas daquele blues doído e urgente... "Tem dias que a gente amanhece achando que nasceu para perder." Riso grudou no rosto, coração acelerou e a gargalhada foi inevitável. Como é que pode rir com tanta desilusão? Pensei sozinha. Duas horas de show, eu quase em transe. Lembranças me devorando, uma lágrima no canto do meu riso. Lágrima e lembrança doce. Era blues agindo na minha alma. Chuva caia sem parar, calor da viagem alheia. Todos juntos na mesma energia. O show foi terminando, o bar esvaziando e de repente me vi quase sozinha ali, ouvindo aquela música que quase me acarinhava... "Eu vou cantar um blues para quem vaga pela noite sozinha...", sai do bar antes da música acabar. Caminhando para o meu carro, tonta e com aquelas notas ecoando na minha mente. Sozinha e apaixonada pelo momento. Pelo meu momento.
Belchior me ganhou nos vinte e poucos anos de sonhos e de América do sul. Hoje, fala exatamente o que sinto. Fases, poesia, paixão. Coração Selvagem!
"Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar. Que é para eu ter tempo, tempo para eu me apaixonar. Tempo para ouvir o rádio no carro. Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo. (...) Sim! Já é outra viagem e o meu coração selvagem tem pressa de viver."